Investigação
Caso de machismo é analisado no IFSul
Ataques ocorreram por uma rede social contra candidata à direção-geral do CaVG
Divulgação -
Os comentários considerados machistas feitos nas redes sociais por um servidor do Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul) em Pelotas, serão analisados pela Comissão de Ética da instituição. O fato ocorreu durante e após o processo eleitoral do Campus Visconde da Graça (CaVG). Uma nota de repúdio ao episódio foi divulgada pelo instituto com a assinatura do reitor Flávio Nunes e diretores dos 14 campi do IFSul espalhados pelo Estado.
Segundo Nunes, após a análise feita pela comissão, será apontado qual o tipo de penalidade cabível ao servidor. O reitor diz que a situação será usada dentro da instituição para um trabalho de conscientização sobre a igualdade e os direitos das mulheres visando evitar novos casos. “Somos completamente contra esse discurso. Todos os avanços já adquiridos e os que ainda estão por vir em relação aos direitos das mulheres precisam ser respeitados.”
Em conversa com a reportagem do Diário Popular, o servidor Olavo Pereira disse reconhecer o erro. “Foi uma colocação imprópria que eu fiz. Errar é humano e essa situação está servindo de aprendizado.” Segundo ele, uma carta de retratação foi encaminhada através do sistema interno do instituto pedindo desculpas pela atitude.
O caso
Os comentários tiveram início durante a apuração do primeiro turno das eleições para diretor-geral do CaVG, realizado no dia 7 deste mês. Com o resultado positivo para a então candidata Fabíola Pereira, o servidor escreveu no chat da transmissão: “Aí Betemps, tu não é político mesmo, perdendo para as mulheres”. As palavras automaticamente geraram revolta a quem acompanhava a apuração. Após a realização do segundo turno que definiu Betemps como diretor do campus, Pereira voltou a fazer ataques. No último dia 26, foi até a foto do perfil da rede social do diretor eleito e escreveu: “E aí Dr. Diretor, parabéns pela vitória em cima das mulheres. Elas querem tudo ao mesmo tempo, ser igual aos homens, fazer doutorado, ter filhos, ser diretoras, reitoras, cuidar do marido e da casa. As que tem né, porque hoje em dia….Sem comentários”, escreveu o servidor. O comentário acabou sendo removido pelo diretor, que se posicionou contra.
Marcos Betemps diz que já havia tido contato com Pereira em 2013, quando foi pró-reitor de Pesquisa, e se surpreendeu com os comentários. Betemps conta que estava em aula quando colegas começaram a mandar os prints da publicação que havia recebido dois comentários do servidor. “Assim que encerrei minha aula deletei o comentário feito por ele. Em hipótese alguma vou concordar com o que ele escreveu. É um ataque muito sério a todas as mulheres”, comenta.
Já a professora Fabíola Pereira, que foi o alvo para os ataques, lamenta o ocorrido. “Foi uma agressão direcionada a mim, mas atinge a todas servidoras, alunas e todas as mulheres. Esse servidor nos resume à maternidade e ao marido, como se essa fosse nossa função. Queremos sim ser reitoras, doutoras, prefeitas.” Ela ainda destaca a importância de falar sobre o assunto que deixou de ser uma pauta apenas do CaVG e se tornou uma discussão dentro do IFSul. A professora informou que nos próximos dias vai se reunir com um advogado para analisar as medidas judiciais cabíveis em relação ao caso.
Quem também comentou na publicação feita por Betemps foi Juliana Pereira. A jovem se apresentou como filha de Olavo. Na postagem, ela lamentou a atitude do pai e disse que ele deve repensar sua postura e seus conceitos. “Para ele deve ser muito infortúnio, com esse pensamento demonstrado aqui, ter visto sua única filha tornar-se: doutora em educação; uma docente desta instituição que trabalha em prol das ações afirmativas; integrante da nova composição eleita da gestão de um campus do IFSul; e sim, não ter marido aos 36 anos de idade. Sim, nós fizemos o que queremos e tu sabes bem disso”, escreveu a filha. A reportagem do Diário Popular tentou contato com ela, mas até o fechamento desta edição não obteve retorno.
Luta por igualdade
Após Fabiola publicar a reprodução do comentário feito pelo servidor, criticando-o, começou a receber o apoio de outras mulheres. Em em 24 horas após o post, foi criado através do whatsApp o coletivo Ellas (Educação, Luta, Liberdade, Apoio e Sororidade), que conta atualmente com 171 servidoras e estudantes de diferentes campi do instituto. Como primeira ação, o coletivo entregou ao reitor do IFSul uma denúncia contra o servidor.
Fabíola explica que o objetivo do coletivo é construir uma política efetiva de enfrentamento a situações como essa, com uma agenda de discussão sobre o tema, dando apoio à reitoria e às gestões dos campi no combate ao machismo, à misoginia e outros temas. “Esse episódio tem que servir como exemplo, queremos que isso se torne algo pedagógico para que as pessoas consigam refletir. Esse servidor é uma amostra do que as mulheres passam todos os dias”, finaliza.
No IFSul, a proposta de uma política de prevenção e combate a todas a formas de assédio e violência dentro do instituto já vinha sendo elaborada pelo Departamento de Educação Inclusiva da Pró-reitoria de Ensino, junto com o Grupo de Trabalho (GT) dos núcleos de Gênero e Diversidade (NUGED). Após o ocorrido, no entanto, a intenção ganhou força e, a partir de agora, o objetivo é a elaboração de um documento para que sirva como marco normativo e que promova ações educativas na instituição.
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